As pílulas GLP-1 para emagrecimento devem acelerar mudanças relevantes no consumo de alimentos nos Estados Unidos a partir de 2026. Analistas apontam que a chegada dos comprimidos, prevista para janeiro, tende a ampliar o uso da classe de medicamentos e pressionar fabricantes de alimentos embalados e redes de fast-food a rever portfólios, porções e posicionamento de produtos.
A expectativa é que a versão oral amplie o acesso aos tratamentos por ser mais barata e por eliminar a necessidade de injeções — um fator que ainda afasta parte dos pacientes. Na segunda-feira, a Food and Drug Administration autorizou o Wegovy GLP-1 em comprimido, da Novo Nordisk, movimento que derrubou ações de empresas de alimentos no dia seguinte. Um medicamento concorrente da Eli Lilly deve receber aprovação em 2026, ampliando ainda mais o alcance da categoria.
Segundo a Reuters, analistas consideram a decisão um ponto de inflexão, com potencial de expandir rapidamente o mercado de GLP-1 e seu impacto sobre padrões alimentares.
Menos calorias, mais proteína e porções menores
O avanço das pílulas GLP-1 reforça tendências já observadas com as versões injetáveis: redução do consumo de snacks salgados, bebidas açucaradas e álcool, além de maior foco em proteína, fibra e porções menores. Empresas como Conagra Brands e Nestlé já ajustam estratégias para responder à mudança de hábitos.
“Vemos consumidores reduzindo lanches salgados, bebidas alcoólicas e produtos de padaria, enquanto priorizam proteína e fibra”, afirmou JP Frossard, analista do Rabobank. Para ele, a maior disponibilidade de GLP-1 amplia o mercado endereçável para alimentos formulados especificamente para esse público.
Andrew Rocco, da Zacks Investment Research, classificou a versão oral como inovadora. Segundo ele, o comprimido tende a ser mais acessível que o Wegovy injetável, com resultados semelhantes de perda de peso, reforçando a necessidade de inovação funcional em alimentos.
Impacto direto nos gastos com alimentos
Os dados já indicam efeitos concretos. Informações do governo dos EUA mostram que cerca de 40% dos adultos do país são obesos, enquanto aproximadamente 12% já utilizam medicamentos GLP-1, segundo levantamento recente da KFF.
Pesquisa da Cornell University revela que famílias usuárias de GLP-1 gastam, em média, 5,3% menos em supermercados e quase 8% menos em restaurantes fast-food. O estudo analisou compras de cerca de 150 mil domicílios, com dados da Numerator.
Quando o uso do medicamento é interrompido, a redução nos gastos diminui. Para a coautora Sylvia Hristakeva, a tendência é que os efeitos se espalhem com a chegada das pílulas GLP-1, já que o formato facilita a adesão por períodos mais longos.
Indústria reage com novos rótulos e portfólios
Mesmo antes da chegada dos comprimidos, a indústria acelera ajustes. A Conagra passou a rotular refeições congeladas da linha Healthy Choice como “amigáveis ao GLP-1”, destacando proteína e fibras, e planeja ampliar o portfólio em parceria com varejistas como Walmart e Kroger.
A Danone reportou crescimento de dois dígitos em produtos ricos em proteína, especialmente o iogurte Oikos, enquanto a Nestlé lançou refeições congeladas voltadas a usuários de GLP-1 sob a marca Vital Pursuit.
No foodservice, a adaptação também avança. A Chipotle lançou um menu com foco em alto teor de proteína e porções individuais, enquanto redes como Olive Garden passaram a oferecer pratos menores e mais baratos. Para Stephen Kennedy, da Noodles and Company, a proposta é atender consumidores que buscam saciedade sem excessos.
Com a popularização das pílulas GLP-1, a transformação tende a ir além da dieta individual, redefinindo estratégias de produto, comunicação e inovação em toda a cadeia de alimentos e bebidas nos Estados Unidos.


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